Oito dias, quatro horas e 12 páginas depois
Celebro hoje o 8.º dia da minha primeira reclusão académica. Gerei umas parcas 12 páginas que constituem o primeiro capítulo da pretendida tese de mestrado. Terminada a primeira tarefa, apetece-me festejar: abrir uma garrafa de champanhe (bruto, claro), misturar-me entre uma multidão dançante até ao amanhecer (eu sei que parece kitsh, mas asseguro aos inexperientes que a solidão do trabalho académico cria ansiedade social positiva). Deambulo até à cozinha. Esperançada, abro com convicção a porta do frigorífico. A decepção, fria, é quase imediata. Apenas água e um resto de vinho branco que não me seduz. Azar. Champanhe, nesta casa, só quente. Rumo, de novo, para perto do meu companheiro de (quase) todas as horas. Na net procuro o calendário de festas de estio em Aveiro. É terça-feira e, apesar das noites quentes que por aqui se fazem sentir, a pesquisa confirma o expectável: uma noite em branco. Ainda me tento a uns kilómetros sem destino. O cão, solto e desobediente às minhas ordens para se deixar prender, afasta, impiedoso, o que parecia ser o mais exequível dos desejos. Volto ao escritório, local que me tem reclusa há oito dias. Pela primeira vez, sinto claustrofobia. Os livros olham para mim através da sua existência longa e pesada. Abro a janela. E é com a noite escura, a sorrir inocentemente para a vaguidão do céu, que acabo, solitariamente, a celebrar o fim de oito dias de reclusão e de 12 páginas de texto.
