quarta-feira, agosto 09, 2006

Oito dias, quatro horas e 12 páginas depois

Celebro hoje o 8.º dia da minha primeira reclusão académica. Gerei umas parcas 12 páginas que constituem o primeiro capítulo da pretendida tese de mestrado. Terminada a primeira tarefa, apetece-me festejar: abrir uma garrafa de champanhe (bruto, claro), misturar-me entre uma multidão dançante até ao amanhecer (eu sei que parece kitsh, mas asseguro aos inexperientes que a solidão do trabalho académico cria ansiedade social positiva). Deambulo até à cozinha. Esperançada, abro com convicção a porta do frigorífico. A decepção, fria, é quase imediata. Apenas água e um resto de vinho branco que não me seduz. Azar. Champanhe, nesta casa, só quente. Rumo, de novo, para perto do meu companheiro de (quase) todas as horas. Na net procuro o calendário de festas de estio em Aveiro. É terça-feira e, apesar das noites quentes que por aqui se fazem sentir, a pesquisa confirma o expectável: uma noite em branco. Ainda me tento a uns kilómetros sem destino. O cão, solto e desobediente às minhas ordens para se deixar prender, afasta, impiedoso, o que parecia ser o mais exequível dos desejos. Volto ao escritório, local que me tem reclusa há oito dias. Pela primeira vez, sinto claustrofobia. Os livros olham para mim através da sua existência longa e pesada. Abro a janela. E é com a noite escura, a sorrir inocentemente para a vaguidão do céu, que acabo, solitariamente, a celebrar o fim de oito dias de reclusão e de 12 páginas de texto.

domingo, maio 14, 2006

Outfit empresarial - Regras para defraudar clientes atrevidos e afins

Há dias em que começo o dia suspensa sobre a porta do armário aberta. O caso piora em dia de reuniões. Sobretudo se os interlocutores da mesma forem um ou mais elementos masculinos. Particularmente se, em questão, se tartarem de pessoas que ainda não conheça. De tanto o praticar, o racional está já automatizado no processo de selecção. Primeiro, ficam de parte as gangas, as saias mais e menos curtas, as camisas decotadas, os tops justos, os vestidos inisinuantes. Segundo nível de rejeição: tecidos transparentes, peças com rachas indecorosas, calças que desenham o corpo, retirando trabalho à imaginação masculina. Sobram-me, então, um par de fatos tipicamente masculinos, um deles com a tradicional risca branca que abunda no meio empresarial que frequento. Com ele garanto a seriedade da reunião, a respeitabilidade da minha pessoa e, com mérito e alguma dose de sorte, o fecho do negócio. Houve tempos em que usava uma aliança comprada especificamente para estas ocasiões como forma de protecção. Hoje, a aliança fica em casa, ao pé das outras, que também deixei de usar. O meu escudo de protecção passaram a ser os fatos riscados, o sorriso fechado e a recusa em fazer ou conversar sobre negócios a horas que saltam para além dos horários de expediente. Mas, mesmo assim, continuo a achar aborrecido o tempo que fico suspensa sobre a porta do armário. Em particular porque o gesto existe apenas para fazer atropelar, naquele dia, o facto de ter nascido mulher.

sábado, maio 13, 2006

Uma noite de amor com "You" - Pat Metheny Group

you. you again. Chegaste na companhia do fabuloso "speaking of now life", do Pat Metheny group. Sob uma colina adormecida de Lisboa, a melodia da guitarra seduz a voz de Richard Bona à qual juntamos, pouco depois, a música dos nossos corpos. Are you going with me?, pergunta a canção com que te iniciaste nos sons jazísticos. Enrolas-te no meu corpo. Corto a respiração para nos roubar este momento, e penso: haverá resposta mais clara do que esta?

quarta-feira, maio 10, 2006

O primeiro convite para jantar

Tinha 25 anos e uma ainda muito mais jovem empresa para lançar. Num final de dia de trabalho, o telefone toca. Do outro lado, o dono de uma produtora de televisão, a quem tinha entregue uma proposta de trabalho, apresenta-se. Penso:como terá descoberto o meu telemóvel? Demovo as dúvidas "sherlokianas" para me centrar nos factos e argumentos da proposta entregue. Mas a conversa não segue por aí. Inesperadamente, ouço: o projecto parece-me bem. Começamos o trabalho para a semana. Mas gostava de jantar consigo e discutir, em pormenor, algumas ideias do projecto. Ostras, gosta? Repito.Tinha 25 anos e uma ainda muito mais jovem empresa para lançar. E esta era, dois meses depois de ter inciado a aventura no mundo empresarial, a primeira vez com que me confrontava com esta situação. A resposta, menos imprevisível do que a pergunta, sai. Seca, dura e curta: - Sou alergica. O tom de voz deve tê-lo demovido de sugerir uma iguaria gastronómica alternativa. O telefonema terminou com a promessa de uma adjudicação ao trabalho no dia seguinte. Que, como é, óbvio, nunca cheguei a receber.